Terça, 14 de novembro de 2017, 08h16
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Opinião

Em defesa da ministra

Por conta de um discurso infeliz, demonizaram Luislinda Valois, atribuindo-lhe pecado, que, a meu ver, não cometeu

A mídia nacional e as redes sociais desancaram a ministra dos Direitos Humanos, durante a semana passada.

Até a Convergência Negra, que reúne mais de 15 entidades no país, não poupou a também militante negra Luislinda Valois. Embora a vítima tenha errado no discurso, defendo que tinha razão no mérito.

A ministra reclamava o pagamento de salário correspondente ao cargo que ocupa no Governo Temer, cujo valor, somado ao que já recebe como desembargadora aposentada, chegaria a 61 mil reais.

É muito dinheiro, mas parece não haver ilegalidade na pretensão. Houve, sim, uma infelicidade na fala da ministra, que a colocou na berlinda e, provavelmente, a tirará do Planalto.

Afirmar que não receber pelo serviço prestado equivale a trabalho escravo pegou muito mal. Também não é pra menos.

Se não fosse suficiente tamanho disparate, tentou ainda defender a necessidade deste dinheiro extra para renovar o guarda-roupa, maquiar-se e até comprar sapatos novos para manter a liturgia do cargo.

Ficou muito feio para a Luislinda, com o perdão do trocadilho.

Mas, o interessante no episódio é que todos bateram duramente na ministra pelo falatório inapropriado, no que tinham razão, mas ignoraram a essência do problema.

Por conta de um discurso infeliz, demonizaram a servidora, atribuindo-lhe pecado, que, a meu ver, não cometeu.

Senão, vejamos: como desembargadora aposentada, ela recebe cerca de 30 mil por mês, direito que ninguém pode negar-lhe, porque trabalhou anos pra consegui-lo legalmente.

Com esse dinheiro, ela podia dar-se ao prazer de viver na curtição, viajando para a Europa, refestelar-se nas bonitas praias do seu Estado, ou, sendo outros seus interesses, fazer um curso de filosofia, história da arte ou literatura para enriquecer sua cultura.

De outra forma, se tem prazer no trabalho, oferecer seus conhecimentos jurídicos para empresas ou instituições, e, naturalmente, receber um salário compatível com sua formação e experiência, que não são poucas.

Se não ocupasse o cargo de ministra, a União precisaria contratar alguém e pagar, como a qualquer outro que desempenha o mesmo cargo o valor de trinta e poucos mil reais.

Ou seja, se ela for afastada porque queria o salário correspondente à função, a União gastará o mesmo tanto com o seu possível substituto.

Segundo penso, não há nenhuma relação do valor recebido por ela, por conta da aposentadoria com o que pretendia receber pelo trabalho no ministério.

O primeiro é o justo direito pelo labor do passado; o outro, a necessária remuneração da atividade atual.

Podemos dizer que a ministra foi muito mal, quase grotesca, na defesa de seus interesses.

Também é possível arguir que sua emanda é totalmente inadequada, diante da crise que o país atravessa. Mas esses argumentos não são suficientes para negar a uma pessoa aposentada o direito de voltar ao trabalho.

E receber por isso, claro.

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor em Cuiabá.



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