Quinta, 20 de abril de 2017, 08h11
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Opinião

Educação política

As revelações da Lava Jato e o buraco em que o Brasil se meteu evidenciam o fracasso de uma geração



Tenho participado de debates sobre os rumos da política brasileira por meio de artigos publicados em jornais, sites, blogs, e até fazendo comentários em rádios e televisões, quando convidado. Isso há vários anos seguidos.

A política, no sentido maior da expansão do Estado e do interesse nacional, deveria ser uma tradição de missão, de lealdade absoluta à pátria e de fidelidade aos princípios éticos.

Mas, a falta de preparo e, porque não dizer, de educação política em nossos quadros tem provocado efeito contrário. Os políticos passaram a não enxergar o projeto de país onde cada qual foi eleito e passaram a se preocupar mais com a conta bancária e as vantagens obtidas para si e seus apaniguados.

 

As revelações da Operação Lava-Jato e o buraco em que o Brasil se meteu evidenciam o fracasso de uma geração. Isto porque o governo e a oposição, o Congresso Nacional, os partidos políticos e boa parte dos governos estaduais caíram no descrédito popular.

É no mínimo estarrecedor o que o país está assistindo em relação a organização criminosa que se instalou no governo nos últimos anos. Qualquer que seja o contrato fechado, obra em andamento, medida aprovada pelo congresso, tudo tem como objetivo principal engordar o patrimônio daqueles que deveriam zelar pelo erário.

A roubalheira não tem ideologia, vai da extrema direita à extrema esquerda.

Quanto se roubou de dinheiro público nesses anos todos? Com certeza, o que foi desviado seria suficiente para resolver todas as mazelas que a população enfrenta na saúde, educação, meio ambiente, segurança, saneamento, transporte.

Os nossos principais políticos são os mesmos desde a Constituinte – com raras exceções – e não foram capazes até agora de combater os privilégios e reduzir as desigualdades.

É preciso construir novos consensos em torno de ideias básicas que promovam o crescimento econômico sustentável e enfrentar seculares iniquidades sociais, algumas herdadas do século XVI, como o analfabetismo, a corrupção e a discriminação racial.

E o caminho mais sólido para superar esses problemas é com a Educação Política. Nossas crianças podem ser educadas, desde os primeiros anos escolares, a conviver bem em sociedade, isso implica em ter conteúdos e práticas escolares nas áreas de filosofia, história, ética e política. É a partir da reflexão filosófica que a política nasce na Grécia antiga, e também nasce nas crianças. Há experiências exitosas e muito interessantes nas escolas da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos da América. No Brasil, infelizmente, o caminho que se toma, a cada reforma do ensino, é o contrário.

Não se trata de doutrinação política das crianças, mas de detê-las como sujeitos da história, como pessoas que vão dirigir o país e reorientar os destinos da sociedade. Incluir essas disciplinas ou temáticas na educação infantil significa incorporar metodologias que ajudem as crianças a pensarem de forma independente, autônoma e com responsabilidade (sabendo que seus atos e pensamentos têm consequência).

 

Na educação fundamental, a sequência disso é a manutenção dessas disciplinas incorporando práticas adaptadas a cada faixa etária. Nos Estados Unidos, por exemplo, era tradição que as crianças e jovens aprendessem retórica. Debates eram incentivados, em sala de aula, em competições nas escolas, até mesmo em competições de caráter nacional. Nesse processo as crianças e jovens eram incentivados a saber escolher argumentos, a respeitar a opinião alheia e, principalmente, a reconhecer que a vitória de um argumento se dá por meio do debate e do convencimento e não da violência ou de práticas de dominação.

Nossos jovens não aprendem a argumentar. Crescem e não são bons políticos. Esses não têm a prática do debate, nem a ética da política.

Vicente Vuolo é economista, cientista político e analista legislativo do Senado Federal.



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